O Apelo Irresistível do Desconhecido na Era do Algoritmo
A redação do netthings.pt recebeu um sussurro vindo dos cantos mais obscuros do cinema de culto: a recomendação fervorosa para assistir a 'Possession' (1981), de Andrzej Żuławski, sem qualquer preparação prévia. A fonte original é clara: 'Vá ver agora', sem trailers, sem spoilers. Isto, num ecossistema digital obcecado por metadados e otimização de busca, é quase um ato de rebeldia.
Para nós, tecnólogos e entusiastas da inovação, esta notícia transcende a simples promoção de um filme de terror/drama psicológico. 'Possession' é citado pela sua natureza intensamente surreal e perturbadora. Num mundo onde a IA é treinada em vastos conjuntos de dados para prever e otimizar experiências (desde o feed do TikTok até à próxima compra na Amazon), a urgência de experimentar algo 'cego' — algo que os algoritmos não conseguem categorizar ou prever facilmente — torna-se um ponto nevrálgico.
A Tecnologia e a Busca pela Experiência 'Crua'
O impacto desta recomendação no nosso setor reside na fricção entre a experiência programada e a experiência orgânica. Vivemos na era do 'streaming on demand', onde a curadoria algorítmica domina. Se o algoritmo de recomendação do Shudder ou Criterion souber que gostamos de terror dos anos 80, é provável que nos empurre para algo semelhante. A recomendação de ir 'às cegas' é um desafio direto a este paradigma.
Em termos de inovação, isto reflete uma saturação da previsibilidade. Os criadores de conteúdo, os designers de UX e os engenheiros de software estão constantemente a tentar dominar a arte de cativar a atenção através de interfaces suaves e lógicas. No entanto, obras como 'Possession' provam que o impacto mais duradouro vem da desorientação deliberada, do desconforto narrativo. Pensemos nisto como o 'bug' intencional no sistema, a anomalia que força o cérebro a trabalhar de uma maneira não treinada.
O Valor da Descoberta Não Mediada
A facilidade de acesso mencionada (Shudder, Criterion, Kanopy, Hoopla) sublinha como mesmo obras de nicho, intensamente desafiadoras, encontraram caminhos digitais robustos. Contudo, o verdadeiro desafio não é o acesso, mas a abordagem. Se começarmos a tratar cada nova obra de arte — seja um filme, um novo software beta ou um modelo de linguagem emergente — como um produto a ser consumido com base em resumos pré-digeridos, perdemos a capacidade de nos surpreendermos genuinamente.
Para a comunidade tecnológica, isto serve como um lembrete: a inovação genuína raramente é linear ou confortável. Assim como 'Possession' exige que o espectador suspenda a sua necessidade de lógica imediata, a próxima grande disrupção tecnológica exigirá que os profissionais suspendam o seu apego aos modelos de sucesso existentes. A recomendação é clara: se querem um choque, se querem redefinir o que consideram 'normal' no consumo de mídia, procurem o que não foi ainda devidamente indexado ou recomendado pelo seu feed. Encontrem o surreal antes que ele seja transformado em meme categorizado.
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