Starship vs New Glenn: Qual o Foguetão Reutilizável que Está a Liderar a Corrida Orbital

Dois gigantes, duas filosofias para chegar à órbita
A nova era do acesso ao espaço já não se faz com foguetões descartáveis. A SpaceX e a Blue Origin estão a travar uma disputa silenciosa, mas decisiva, com dois veículos que prometem reduzir drasticamente o custo por quilograma colocado em órbita: o Starship e o New Glenn. Apesar de partilharem o objetivo da reutilização total, as abordagens técnicas e os marcos alcançados até agora são profundamente diferentes.
Starship: a aposta na escala e no aço inoxidável
O Starship da SpaceX é, simplesmente, o maior foguetão alguma vez construído. Com cerca de 120 metros de altura e capacidade teórica para colocar mais de 100 toneladas em órbita baixa, o veículo é feito em aço inoxidável e propulsionado por 33 motores Raptor no primeiro andar, o Super Heavy. O grande feito recente foi a captura do propulsor pelos braços mecânicos da torre de lançamento em Boca Chica, no Texas — uma manobra que parecia ficção científica e que demonstra a maturidade do sistema de recuperação.
A SpaceX já encadeou vários voos de teste suborbitais com reentrada controlada do segundo andar, e a empresa de Elon Musk continua a iterar a um ritmo que nenhuma concorrente consegue acompanhar. O contrato com a NASA para a missão Artemis, que prevê levar astronautas à superfície lunar com uma variante do Starship, mantém-se como a grande validação institucional do programa.
New Glenn: a resposta metódica da Blue Origin
Do outro lado está o New Glenn, o foguetão pesado da Blue Origin de Jeff Bezos. Com 98 metros de altura e capacidade para colocar 45 toneladas em órbita baixa, é um veículo mais modesto que o Starship, mas ainda assim na categoria dos super-pesados. O primeiro andar usa sete motores BE-4 a metano e oxigénio líquido — os mesmos que equipam o Vulcan da ULA — e foi projetado para aterrar de forma autónoma numa plataforma marítima, à semelhança do Falcon 9.
O voo inaugural do New Glenn descolou de Cabo Canaveral e conseguiu colocar a carga útil em órbita, embora a tentativa de recuperação do primeiro andar tenha falhado. Ainda assim, foi um marco histórico: a Blue Origin entrou oficialmente no clube restrito dos operadores de lançadores orbitais pesados, e o segundo andar cumpriu a missão sem sobressaltos.
Comparação técnica: onde estão as diferenças
Em termos de carga útil, o Starship lidera com folga, sendo desenhado para missões interplanetárias e para abastecer constelações inteiras numa só viagem. O New Glenn posiciona-se como uma alternativa robusta para satélites comerciais, militares e missões científicas, sem a ambição marciana do rival.
Na reutilização, ambos partilham a filosofia de recuperar pelo menos o primeiro andar. A SpaceX já demonstrou a captura do Super Heavy, enquanto a Blue Origin ainda precisa de aperfeiçoar a aterragem do seu propulsor. Quanto ao segundo andar, o Starship pretende ser totalmente reutilizável — algo inédito —, ao passo que o segundo andar do New Glenn é, para já, descartável.
Cadência e contratos: o fator decisivo
A diferença mais visível está no ritmo. A SpaceX opera com uma cultura de iteração rápida, com explosões controladas e correções entre voos consecutivos. A Blue Origin segue o lema gradatim ferociter (passo a passo, ferozmente), priorizando voos bem-sucedidos logo à partida, mesmo que o calendário se arraste.
No mercado, o Starship começa a atrair contratos para constelações de internet via satélite e missões lunares, enquanto o New Glenn já garantiu lançamentos para a constelação Kuiper da Amazon e contratos militares com o Pentágono. A disputa não é, portanto, de soma zero: há espaço para os dois.
Quem está a ganhar?
Se medirmos pelo número de voos, marcos técnicos e contratos assinados, o Starship leva clara vantagem. Mas o New Glenn acaba de entrar em cena e tem um histórico de fiabilidade que poderá seduzir clientes mais conservadores. A verdadeira vitória, para utilizadores europeus e portugueses, será a queda do preço dos lançamentos — algo que beneficiará desde missões científicas da ESA até startups nacionais de observação da Terra.
A corrida orbital deixou de ser entre nações para passar a ser entre empresas privadas. E ambos os foguetões, à sua maneira, estão a tornar o espaço mais acessível do que alguma vez foi.
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