Stablecoins de Euro Ganham Tração na Europa: O Avanço Silencioso da EURC e EURI

O mercado de stablecoins europeias está finalmente a aquecer
Durante muito tempo, o universo das stablecoins foi dominado quase em exclusivo pelo dólar americano, com a USDT da Tether e a USDC da Circle a concentrarem mais de 99% da capitalização do setor. No entanto, algo está a mudar no continente europeu. Com a entrada em vigor plena do regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets), as stablecoins denominadas em euro começam a registar volumes de transação relevantes pela primeira vez na sua história.
EURC e EURI: as duas favoritas do mercado europeu
A EURC, emitida pela Circle, é atualmente a stablecoin de euro com maior capitalização de mercado e tem vindo a crescer de forma consistente nas últimas semanas. Beneficia de integração nativa em redes como Ethereum, Solana, Base e Avalanche, o que a torna particularmente atrativa para protocolos de DeFi que pretendem oferecer exposição à moeda europeia sem o risco cambial associado ao dólar.
Por outro lado, a EURI da Banking Circle, lançada em parceria com a Binance, tem ganho terreno rapidamente em corretoras centralizadas. A vantagem competitiva está na sua emissão por uma instituição com licença bancária europeia, o que confere uma camada adicional de confiança regulatória num momento em que os reguladores estão particularmente atentos.
Porque é que isto importa para Portugal
Para utilizadores portugueses, a adoção de stablecoins em euro resolve um problema prático: deixa de ser necessário converter para dólar para utilizar serviços de finanças descentralizadas, evitando spreads cambiais e exposição à flutuação EUR/USD. Plataformas como a Aave já permitem depósitos e empréstimos em EURC, abrindo a porta a estratégias de rendimento passivo denominadas na moeda local.
Adicionalmente, o setor fintech português, com nomes como a Utrust ou novas iniciativas de pagamentos cripto-fiat, beneficia diretamente desta liquidez crescente. Comerciantes que aceitem pagamentos em stablecoins de euro evitam o risco cambial que existia ao receber em USDT ou USDC.
O efeito MiCA e a saída da USDT
Um dos catalisadores menos discutidos desta tendência é o efeito colateral do MiCA sobre a USDT. A Tether optou por não cumprir alguns dos requisitos europeus, levando várias corretoras a remover pares de negociação com a sua stablecoin para clientes do Espaço Económico Europeu. Esta saída forçada criou um vácuo de liquidez que está a ser preenchido precisamente pelas alternativas em euro, num movimento que poucos analistas anteciparam com esta velocidade.
Riscos e pontos de atenção
Apesar do otimismo, há sinais a vigiar. A capitalização total das stablecoins de euro continua marginal face às congéneres em dólar, e a profundidade de liquidez em mercados secundários ainda é limitada. Investidores institucionais aguardam volumes mais consistentes antes de alocarem capital significativo, o que pode atrasar a maturação do segmento.
Outro ponto sensível é a fragmentação: além da EURC e EURI, existem ainda a EURT, EURS e várias outras tentativas que dispersam liquidez. A consolidação em torno de duas ou três opções dominantes parece inevitável, mas o vencedor final ainda não está decidido.
O que esperar nos próximos meses
A tendência aponta para uma integração crescente de stablecoins de euro em soluções de pagamento retalhista, particularmente em remessas transfronteiriças dentro do espaço Schengen. A combinação de liquidação quase instantânea, custos reduzidos e conformidade regulatória cria um caso de uso difícil de ignorar para PME exportadoras. Para quem acompanha o setor fintech em Portugal, vale a pena estar atento aos próximos passos.
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