Stablecoins em Euros: A Nova Corrida dos Bancos Europeus que Está a Mudar a Fintech

O regulamento MiCA abriu uma janela que ninguém estava à espera
Durante anos, o mercado de stablecoins foi dominado quase em exclusivo pelo dólar americano, com a Tether (USDT) e a USD Coin (USDC) a concentrarem mais de 90% do volume global. Mas algo começou a mexer-se silenciosamente na Europa: a entrada em vigor plena do MiCA (Markets in Crypto-Assets) está a empurrar bancos tradicionais para um território que até há pouco consideravam tóxico — as criptomoedas.
A tendência é clara. Instituições como o Société Générale, através da sua subsidiária SG-Forge, já emitem a EURCV, uma stablecoin lastreada em euros e regulada. A italiana Banca Sella, o BBVA e até consórcios envolvendo nove grandes bancos europeus estão a preparar as suas próprias moedas digitais. A pergunta deixou de ser se os bancos europeus iam entrar neste jogo — e passou a ser quão rápido.
Porquê agora?
A resposta tem três camadas. Primeiro, o MiCA exige que emissores de stablecoins na União Europeia detenham reservas auditadas, licenças bancárias ou de moeda eletrónica, e cumpram regras rigorosas de transparência. Isto criou, de facto, uma barreira de entrada que favorece bancos e penaliza emissores offshore.
Segundo, há uma pressão geopolítica óbvia: deixar pagamentos digitais transfronteiriços dependentes de stablecoins em dólar é, na prática, ceder soberania monetária. O BCE tem sido vocal nesta matéria, e o euro digital — embora ainda em fase de preparação — não chegará a tempo de competir com a velocidade que o mercado exige.
Terceiro, há dinheiro a sério em jogo. Os pagamentos B2B internacionais, a tokenização de obrigações e os depósitos em stablecoin com rendimento estão a tornar-se produtos legítimos. Quem controlar a infraestrutura controla as taxas.
O impacto em Portugal
Para o ecossistema fintech português, esta mudança é particularmente relevante. Empresas como a Utrust (agora Xmoney), a Criptoloja ou a Mind The Bridge operam num mercado que finalmente tem regras claras. Os bancos nacionais, historicamente conservadores, terão de decidir se constroem soluções próprias, se aderem a consórcios europeus ou se se limitam a integrar APIs de terceiros — uma posição cada vez mais arriscada do ponto de vista competitivo.
O Banco de Portugal tem mantido uma postura cautelosa, mas a CMVM já licenciou várias entidades para operar como prestadores de serviços de criptoativos. A previsão de analistas é que as stablecoins em euros possam representar entre 15% a 20% do mercado total até ao final da década, partindo de uns escassos 1% atuais.
Os riscos que ninguém quer admitir
Nem tudo são boas notícias. A proliferação de stablecoins bancárias levanta questões sérias sobre fragmentação. Se cada banco emitir a sua própria moeda digital, voltamos a um cenário medieval de moedas que não conversam entre si, exigindo conversões constantes e taxas escondidas. A interoperabilidade técnica via redes como a Ethereum, Solana ou redes permissioned ainda está longe de ser resolvida.
Há também o risco sistémico: uma corrida a uma stablecoin bancária pode contagiar o próprio balanço da instituição emissora, algo que reguladores como a EBA estão a tentar mitigar com requisitos de capital mais apertados.
O que esperar nos próximos meses
A tendência aponta para três movimentos concretos. Primeiro, mais bancos europeus a anunciar projetos-piloto, sobretudo em pagamentos institucionais e tokenização de dívida. Segundo, fusões e aquisições entre fintechs cripto e bancos tradicionais — algumas já em curso na Alemanha e em França. Terceiro, uma redefinição do papel das exchanges, que deixam de ser apenas plataformas de negociação para se tornarem infraestrutura crítica de liquidação.
A grande ironia desta história é que a criptomoeda, nascida como alternativa ao sistema bancário, está a tornar-se uma das suas ferramentas mais lucrativas. Para o investidor português atento, vale a pena seguir esta corrida — porque, ao contrário das modas anteriores, esta tem regulamento, capital e bancos centrais a empurrar.
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