Stablecoins ganham terreno na Europa: o efeito MiCA na adoção empresarial

Stablecoins ganham terreno na Europa: o efeito MiCA na adoção empresarial

Stablecoins deixam de ser nicho e entram na tesouraria das empresas

O mercado de stablecoins europeias está a viver uma fase de aceleração silenciosa, mas decisiva. Com o regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets) plenamente em vigor, emissores como Circle, Société Générale-FORGE e a alemã AllUnity (joint venture do Deutsche Bank) estão a posicionar-se para captar fluxos de pagamentos B2B que, até há pouco tempo, dependiam exclusivamente da SWIFT e da rede SEPA. A leitura do mercado é clara: a tokenização do euro deixou de ser uma curiosidade técnica e passou a integrar planos concretos de tesouraria.

EURC e EURCV: a corrida ao euro digital privado

A Circle, conhecida pela USDC, tem reforçado a presença do EURC na Europa após obter licença na França. Em paralelo, o EURCV do Société Générale ganhou tração com integrações em plataformas como Bitstamp e MetaMask. A novidade mais recente vem da AllUnity, que lançou o EURAU, uma stablecoin totalmente regulada como instituição de moeda eletrónica. O objetivo é servir empresas e gestores de ativos que precisam de liquidações 24/7 sem fricção cambial — algo que a infraestrutura bancária tradicional não consegue oferecer.

Portugal no radar: pagamentos transfronteiriços e remessas

Para o ecossistema fintech português, esta tendência abre janelas concretas. Startups como a Utrust (agora parte do grupo Xmoney) e a Mind The Bridge têm explorado pagamentos com stablecoins para PME exportadoras. O argumento é financeiro: uma transferência intra-europeia em EURC liquida em segundos com custos abaixo de 0,1%, contra os 15 a 40 euros típicos de uma transferência SWIFT internacional. Em remessas para a CPLP, especialmente Angola e Brasil, a poupança pode ser ainda mais expressiva.

Tokenização de ativos: o próximo capítulo

A tendência paralela é a tokenização de fundos do mercado monetário e obrigações. A BlackRock, com o seu BUIDL, já demonstrou apetite institucional para colateral on-chain. Na Europa, o BCE prepara o lançamento da fase piloto do euro digital, enquanto bancos como o BBVA e o Santander testam emissões tokenizadas em blockchains públicas. O cenário aponta para um modelo híbrido onde stablecoins privadas, CBDC e depósitos tokenizados coexistem — algo impensável há poucos meses.

Os riscos por trás do otimismo

Nem tudo é linear. A Tether (USDT), líder global, optou por não cumprir os requisitos MiCA e foi removida de várias exchanges europeias, criando vácuos de liquidez. A Kraken e a Binance ajustaram catálogos, e investidores portugueses tiveram de migrar posições. Por outro lado, o BCE tem manifestado preocupação com a dependência de stablecoins denominadas em dólares, que ainda representam mais de 99% do mercado global. A resposta regulatória pode endurecer caso o euro digital privado não ganhe escala rapidamente.

O que esperar nos próximos meses

A leitura do mercado aponta para três movimentos: consolidação entre emissores regulados, entrada de bancos tradicionais com produtos próprios, e integração progressiva com gateways de pagamento como Stripe, Adyen e a portuguesa Easypay. Para investidores e gestores financeiros, a mensagem é direta — vale a pena começar a olhar para stablecoins não como ativo especulativo, mas como infraestrutura de liquidação. A fintech europeia está finalmente a encontrar a sua identidade própria entre o modelo americano agressivo e o asiático estatizado.

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