Satélite Biomass da ESA já mapeia florestas portuguesas com radar inédito

Um radar espacial europeu está a olhar para as florestas de Portugal
A missão Biomass da Agência Espacial Europeia (ESA) começou oficialmente a fase operacional e já está a enviar as primeiras imagens científicas. O que torna este satélite diferente de tudo o que existia em órbita é o seu radar em banda P, o primeiro do género no espaço, capaz de penetrar o coberto vegetal e medir com precisão a quantidade de carbono armazenada em cada árvore. Para Portugal, um país com mais de 3 milhões de hectares de floresta, isto tem consequências muito concretas.
Porque é que isto interessa a quem vive em Portugal
O pinhal, o sobreiro e o eucalipto dominam grande parte do território nacional e são simultaneamente sumidouros de carbono e combustível para os incêndios rurais. Até agora, os inventários florestais dependiam de amostragens no terreno e de imagens óticas que ficam cegas com nuvens ou fumo. O Biomass consegue ver através das copas e até de algum nevoeiro, gerando mapas tridimensionais da biomassa com uma resolução de 200 metros. Isso significa dados mais fiáveis para o ICNF, para as autarquias e para os proprietários florestais que precisam de justificar apoios ligados ao sequestro de carbono.
Impacto direto na prevenção de incêndios
A ANEPC e a AGIF poderão cruzar os mapas do Biomass com os índices de risco meteorológico para identificar zonas de acumulação perigosa de combustível vegetal. Em regiões como o interior centro, onde os grandes incêndios de anos recentes deixaram cicatrizes profundas, este tipo de informação permite planear faixas de gestão de combustível de forma cirúrgica, poupando recursos e priorizando as áreas de maior perigo para populações e infraestruturas.
Ligação à fatura da energia
Pode não parecer óbvio, mas há uma ponte direta entre este satélite e o preço que os portugueses pagam pela eletricidade. O mercado voluntário de carbono e os créditos ligados à reflorestação dependem de medições rigorosas da biomassa. Com dados independentes e certificáveis vindos do espaço, projetos portugueses de silvicultura sustentável passam a ter mais credibilidade internacional, atraindo financiamento que reduz a pressão sobre o Fundo Ambiental e, indiretamente, sobre as tarifas reguladas. Empresas como a EDP, a Navigator e a Altri, todas com forte exposição florestal, estão entre as primeiras a poder tirar partido desta camada de dados.
Como aceder à informação
A ESA disponibiliza os produtos do Biomass através do programa Copernicus, o que significa acesso aberto e gratuito. Investigadores da Universidade de Coimbra, do ISA em Lisboa e do MARE têm já projetos preparados para integrar estes mapas em modelos de risco de incêndio e de balanço de carbono. Para o cidadão comum, o mais provável é que os dados apareçam integrados em plataformas públicas como o Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, oferecendo informação mais transparente sobre o estado real das florestas onde vive.
O que esperar nos próximos meses
A missão está prevista para durar cinco anos e produzirá pelo menos oito mapas globais completos da biomassa florestal. Os primeiros conjuntos de dados calibrados para a Europa ocidental deverão estar disponíveis em breve, e Portugal, pela sua posição geográfica e pela diversidade dos seus ecossistemas florestais, é considerado uma das áreas de validação prioritárias. É uma daquelas raras ocasiões em que ciência espacial, política climática e prevenção de catástrofes se encontram diretamente na paisagem que vemos da janela.
Siga o NetThings no Google News
Fique a par de todas as novidades tecnológicas em tempo real.
⭐ SEGUIR NO GOOGLE NEWS
Participar na conversa