Satélites da IRIS² chegam a Portugal: internet europeia via espaço promete cobrir zonas rurais

Portugal na rota da nova constelação europeia de satélites
A União Europeia está a acelerar o programa IRIS² (Infrastructure for Resilience, Interconnectivity and Security by Satellite), a resposta europeia ao Starlink de Elon Musk e ao chinês Guowang. O consórcio SpaceRISE, liderado pela Eutelsat, SES e Hispasat, começou já os trabalhos preparatórios para colocar 290 satélites em órbita baixa e média, com serviços comerciais previstos a partir do final da década. E Portugal tem um papel mais relevante do que se imaginava.
Que impacto direto tem isto em quem vive em Portugal?
Para quem vive em zonas do interior — Trás-os-Montes, Beira Interior, Alentejo profundo — onde a fibra óptica ainda não chegou de forma decente e o 5G é uma miragem, o IRIS² promete algo concreto: banda larga via satélite de baixa latência, com velocidades competitivas face à fibra e preços pensados para o mercado europeu, não dependentes das oscilações comerciais de uma empresa privada norte-americana.
Ao contrário do Starlink, o IRIS² foi desenhado com foco duplo: serviços governamentais seguros (comunicações militares, proteção civil, gestão de fronteiras) e serviços comerciais para cidadãos e empresas. Isto significa que autarquias portuguesas, o INEM, a GNR e até escolas em zonas isoladas poderão beneficiar de canais dedicados e cifrados.
O papel das empresas portuguesas
A GMV Portugal, a Efacec, a Deimos Engenharia (com sede em Lisboa) e a Neuraspace, sediada em Coimbra, estão envolvidas em subcontratos técnicos que vão desde o software de controlo de tráfego orbital até à monitorização de detritos espaciais. A Neuraspace, em particular, tem-se destacado com a sua plataforma de inteligência artificial para evitar colisões entre satélites — uma tecnologia que se torna crítica quando falamos de centenas de novos objetos em órbita.
A Agência Espacial Portuguesa, sediada em Santa Maria (Açores), pode também vir a acolher parte da infraestrutura terrestre de apoio ao IRIS², nomeadamente estações de rastreio. Os Açores são, geograficamente, um ponto estratégico para comunicações transatlânticas via satélite.
Preço e disponibilidade: o que se sabe até agora
A Comissão Europeia já garantiu 6 mil milhões de euros de financiamento público, com um investimento total estimado em 10,6 mil milhões. Os primeiros satélites deverão ser lançados nos próximos anos, com serviço comercial completo mais tarde. Ainda não há tabelas de preços oficiais, mas fontes ligadas ao consórcio indicam que o objectivo é competir directamente com o Starlink Residencial, que em Portugal ronda os 50 euros mensais mais o custo do kit.
Energia: o outro lado da equação
Manter uma constelação de satélites em órbita exige consumo energético significativo em terra — estações de controlo, data centres e antenas de alta potência. Portugal, com o seu mix energético fortemente apostado em renováveis (eólica e solar já representam mais de 60% da produção nacional em muitos dias), surge como localização atractiva para instalar parte destas infraestruturas. Há conversações preliminares para instalar um data centre de apoio no Alentejo, aproveitando a proximidade às centrais solares de Moura e Ourique.
O que vigiar nos próximos meses
Fica atento a três frentes: os concursos públicos europeus para subcontratação (onde empresas portuguesas podem ganhar peso), a definição da estação terrestre nos Açores e eventuais parcerias entre operadores nacionais como a MEO, NOS ou Vodafone Portugal para revenda dos serviços IRIS². A independência tecnológica europeia deixou de ser um slogan político e começa a ter consequências práticas no bolso e no telemóvel dos portugueses.
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