União Europeia lança concurso para construir até sete gigafábricas de Inteligência Artificial

União Europeia lança concurso para construir até sete gigafábricas de Inteligência Artificial

A corrida europeia pela soberania tecnológica acaba de dar um passo decisivo. A Comissão Europeia lançou um concurso para a construção de até sete gigafábricas de Inteligência Artificial em território europeu, num movimento estratégico que pretende reduzir a dependência tecnológica face aos Estados Unidos e à Ásia, e colocar a Europa no centro da revolução da IA.

Um acordo transatlântico para garantir o hardware

Como passo prévio ao alargamento das capacidades de supercomputação na Europa, a Comissão Europeia concluiu um acordo comercial com os Estados Unidos que resultou na assinatura de três cartas de intenção com os fabricantes norte-americanos AMD, NVIDIA e Qualcomm. O objectivo é claro: garantir o acesso ao hardware de ponta necessário para alimentar estas futuras infraestruturas de computação intensiva.

A escolha destes três gigantes do sector não é aleatória. A NVIDIA lidera de forma incontestável o mercado de chips para IA, a AMD apresenta-se como a principal alternativa competitiva e a Qualcomm traz a experiência em processadores otimizados para eficiência energética — um factor crítico quando falamos de gigafábricas com consumos energéticos massivos.

Portugal entre os 18 Estados-membros envolvidos

Em paralelo, 18 Estados-membros assinaram um acordo de aquisição conjunta com a Empresa Comum Europeia para a Computação de Alto Desempenho (EuroHPC JU). Portugal integra este grupo, ao lado de Espanha, Alemanha, França, Itália e outros 13 países da União Europeia.

A presença portuguesa neste consórcio é particularmente relevante. Coloca o país na primeira linha da estratégia europeia para a IA e abre portas a potenciais investimentos, transferência de conhecimento e oportunidades para empresas tecnológicas nacionais que queiram integrar cadeias de valor associadas a estas infraestruturas.

O que são as gigafábricas de IA?

As gigafábricas de IA são centros de dados de escala industrial, concebidos especificamente para treinar e executar modelos de inteligência artificial de grande dimensão. Ao contrário dos data centers convencionais, estas infraestruturas concentram milhares de GPUs de última geração, sistemas de arrefecimento avançados e redes de altíssimo débito, capazes de processar volumes de dados na ordem dos exabytes.

Estas fábricas serão fundamentais para desenvolver modelos de IA europeus competitivos face aos criados por gigantes como a OpenAI, a Google ou a chinesa DeepSeek, e para assegurar que dados sensíveis — de saúde, defesa, indústria ou administração pública — permanecem processados dentro das fronteiras europeias.

Uma aposta na soberania digital europeia

Este concurso insere-se numa estratégia mais ampla da União Europeia para reforçar a autonomia tecnológica do bloco. Depois do AI Act, o regulamento pioneiro sobre inteligência artificial, Bruxelas percebe que legislar não chega: é preciso construir capacidade produtiva e computacional própria.

Para o tecido empresarial português, o impacto pode fazer-se sentir em várias frentes. Startups nacionais poderão beneficiar de acesso a poder de computação a preços mais competitivos, universidades e centros de investigação ganharão novas ferramentas para projectos ambiciosos, e empresas de sectores como a saúde, banca, retalho ou indústria terão infraestrutura europeia para desenvolver soluções de IA em conformidade com a legislação comunitária.

Próximos passos

Nos próximos meses serão conhecidos mais detalhes sobre localizações, calendário de construção e critérios de selecção dos consórcios vencedores. A expectativa é elevada, sobretudo em países como Portugal, onde a combinação entre energia renovável abundante, clima favorável ao arrefecimento natural e ligações submarinas de fibra óptica pode representar uma vantagem competitiva relevante para acolher uma destas gigafábricas.

Uma coisa é certa: a Europa deixou de olhar para a IA apenas do ponto de vista regulatório e passou a jogar no campo da infraestrutura. E Portugal está a jogar nesse campo desde o primeiro apito.

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