ConsumerChoice: 54% dos portugueses em sofrimento psicológico apesar de 63% considerar ter boa saúde mental

ConsumerChoice: 54% dos portugueses em sofrimento psicológico apesar de 63% considerar ter boa saúde mental

Mais de metade dos portugueses (53,6%) apresenta níveis elevados de sofrimento psicológico, mas, paradoxalmente, 63,4% considera que o seu estado de saúde mental é bom ou muito bom. Este contraste é uma das principais conclusões do novo estudo realizado pela ConsumerChoice sobre a saúde mental em Portugal, divulgado a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, que se assinala a 10 de outubro.

O paradoxo da perceção vs. realidade no estudo da ConsumerChoice

O estudo da ConsumerChoice recorreu à Kessler Psychological Distress Scale (K10), uma ferramenta de avaliação composta por 10 questões, reconhecida internacionalmente para medir o nível de sofrimento psicológico através de sintomas de ansiedade e depressão sentidos no último mês. Os resultados indicam que existe um hiato significativo entre a forma como os portugueses avaliam subjetivamente o seu bem-estar e o que os indicadores objetivos de sofrimento revelam.

Apesar de 53,6% dos inquiridos registarem níveis preocupantes de sofrimento, a maioria (72,1%) afirma que a sua saúde mental está melhor ou igual à do período homólogo. Este dado sugere uma possível normalização do mal-estar ou uma dificuldade em identificar sinais de alerta precoces. Segundo a ConsumerChoice, os fatores que mais contribuem para uma perceção positiva de melhoria são:

  • Melhores condições financeiras (23,3%);
  • Melhores condições de trabalho (22,2%);
  • Estabilidade familiar e pessoal;
  • Acesso a atividades de lazer e bem-estar.

Pressão financeira e o custo de vida como fatores de risco

Se, por um lado, a melhoria financeira traz bem-estar, a sua ausência é o principal gatilho de stress em Portugal. De acordo com os dados da ConsumerChoice, a situação financeira e o elevado custo de vida são apontados por 47,5% dos participantes como o motivo que mais contribui negativamente para o seu equilíbrio psicológico. Este fator sobrepõe-se a outras preocupações, demonstrando que a saúde mental em Portugal está intrinsecamente ligada à estabilidade económica das famílias.

A visão da ConsumerChoice sobre os resultados

Nassrin Majid, Diretora-Geral da ConsumerChoice, alerta para a importância destes dados: “Há um dado neste estudo que merece particular atenção. Podemos acreditar que estamos bem e, ainda assim, estar a acumular níveis significativos de sofrimento psicológico. Esse contraste mostra que falar de saúde mental não pode limitar-se à forma como cada pessoa avalia o seu próprio estado.”

A responsável sublinha ainda que o bem-estar não ocorre de forma isolada, sendo influenciado pelas condições de vida e de trabalho. “Mais do que normalizar a conversa sobre saúde mental, precisamos de criar condições para que pedir apoio seja também normal”, reforça Nassrin Majid.

Ansiedade domina consultas, especialmente entre jovens e mulheres

O estudo da ConsumerChoice identifica a ansiedade como a principal patologia no panorama da saúde mental em Portugal, estando na origem de 72,9% das consultas especializadas. Contudo, os dados revelam uma disparidade profunda quando analisados por género e faixa etária:

No grupo dos jovens adultos, entre os 18 e os 24 anos, a ansiedade é o motivo de consulta para 88,9% dos inquiridos. Nas mulheres, o valor fixa-se nos 86,8%, contrastando fortemente com os homens, que registam uma incidência de 58,3% nas consultas motivadas por estados ansiosos.

Um dado relevante é que 54,3% dos portugueses inquiridos pela ConsumerChoice nunca recorreu a um profissional de saúde mental. Entre os que já o fizeram, 31% tiveram a sua última consulta há cerca de um ano e 23% há mais de um ano. Quando se analisam as idas gerais ao médico, apenas 12% são motivadas especificamente por doenças ou perturbações do foro mental, sendo que a maioria das visitas se prende com consultas de rotina, prevenção ou renovação de receituário (67,8%).

O estigma e a barreira do acompanhamento especializado

Apesar da crescente mediatização do tema, o estigma continua a ser uma barreira real. Cerca de 63% dos participantes no estudo da ConsumerChoice apontam que ainda persiste um preconceito significativo em relação ao acompanhamento psicológico. Esta perceção de julgamento social pode explicar por que razão o recurso a especialistas ainda depende quase exclusivamente da iniciativa individual, em vez de ser uma prática preventiva integrada.

A ConsumerChoice esclarece que este questionário, embora rigoroso na aplicação da escala K10, não substitui um diagnóstico clínico, funcionando como um barómetro social sobre o estado psicológico da população portuguesa em 2026.

Perguntas Frequentes

O que é a escala K10 mencionada no estudo da ConsumerChoice?

A Kessler Psychological Distress Scale (K10) é um questionário de 10 perguntas desenhado para medir o nível de ansiedade e depressão que uma pessoa sentiu nas últimas quatro semanas. É amplamente utilizada em estudos epidemiológicos para identificar o sofrimento psicológico na população geral.

Quais os grupos mais afetados pela ansiedade em Portugal segundo a ConsumerChoice?

Os dados da ConsumerChoice indicam que os jovens dos 18 aos 24 anos (88,9%) e as mulheres (86,8%) são os grupos que mais frequentemente procuram consultas de saúde mental devido a quadros de ansiedade.

Como é que a situação financeira afeta a saúde mental dos portugueses?

De acordo com o estudo, a situação financeira e o custo de vida são os principais fatores negativos para 47,5% dos inquiridos. Em contrapartida, a melhoria das condições financeiras é um dos principais motores para quem sente que a sua saúde mental melhorou no último ano.

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